terça-feira, 26 de maio de 2009

A ligeireza com que mutilamos obras de arte

Fig. 1

Compare as duas imagens. Na fig.1 está representado o quadro “Arearea” que Paul Gauguin pintou em 1892 e, na figura 2, uma releitura e execução efectuada por Douglas Frasquetti (Pintura em Tela, On Line Editora, Edição 25).

Não sei que conclusões  tirou após essa observação. Poderá ter pensado: estão parecidos. Estão “giros”.  Não gosto de nenhum. Gosto de ambos. Foram retirados alguns elementos do plano de fundo.  E depois? Não morreu ninguém por causa disso. O que aconteceu ao cachorro vermelho (também onde já se viu colorir um cachorro de vermelho)? E assim por diante.

Volte a observar os dois quadros e reflicta se esses elementos que foram retirados são assim tão relevantes.

Não nos alonguemos mais e vamos ao encontro de Paul Gauguin. No fim colocar-lhe-ei uma questão.

Antes de mais uma sumária referência aos pressupostos que conduziram à produção do quadro e, depois, uma análise do próprio quadro.

 

O mito do “selvagem”:

Gauguin desprezava a cultura ocidental e, em lugar da dita “civilização”, optou por povos primitivos. Rejeitou a arte académica e valorizou as máscaras africanas, a arte românica e tudo o que não era convencional. O que o fazia apreciar este tipo de arte não era nem a sua curiosidade nem a sua originalidade, mas a sua autenticidade. Essencialmente ele estava em busca de si mesmo.

Características de sua obra

Gauguin desenvolveu as técnicas do "sintetismo" e "cloisonnisme" (alveolismo), estilos de representação simbólica da natureza onde são utilizadas formas simplificadas e grandes campos de cores vivas chapadas, que ele fechava com uma linha negra, e que mostravam uma forte influência das gravuras japonesas. 

A sua pintura é caracterizada por:

Natureza alegórica, decorativa e sugestiva;

Formas dimensionais, estilizadas, sintéticas e estáticas.

 

Arearea

 

Em Abril de 1891, Gauguin partiu para a sua primeira visita ao Taiti, à procura do tal modo de viver primitivo. A sua inspiração despontou a partir de cenas imaginárias decorrentes da observação do meio envolvente, de histórias locais e de antigas tradições religiosas. Arearea é representativo desses trabalhos onde o sonho e a realidade coexistem.

Observemos então (e de novo) a figura 1. No primeiro plano existem vários motivos, resultantes da observação da realidade que cercava Gauguin, e que são recorrentes em relação às suas pinturas deste período. Há duas mulheres sentadas no centro do quadro, uma árvore que percorre toda a tela e um cão vermelho. O céu desapareceu. Uma sucessão de planos coloridos – verde, amarelo, vermelho – forma a estrutura da composição.

Na cena imaginária do último plano há várias mulheres em adoração a uma estátua. Gauguin ampliou uma pequena estátua Maori dando-lhe a dimensão de um grande Buda e inventou um ritual sagrado.

Todos esses elementos criam um mundo encantado, pleno de harmonia e de melancolia, onde o homem vive sob a protecção dos deuses, num ambiente natural luxuriante, numa arcaica e idealizada Polinésia.

 

As perguntas que neste momento faço, à guisa de conclusão, são as seguintes: Quando se recopiou (a referência à releitura é explicitada na revista) o quadro de Gauguin houve ou não um empobrecimento? Onde estão o mistério, o encantamento, a simbologia, o misticismo, a poesia, a vida. Teremos o direito de mutilar, desta forma, obras de arte? Não me estou a reportar, é claro, a situações de recriação de obras em que o autor as altera dando-lhes o seu cunho pessoal perfeitamente identificável.

Bibliografia:

http://www.spanisharts.com/history/del_impres_s.XX/neoimpresionismo/i_gauguin.html, 22 Maio 2009

http://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_Gauguin, 22 Maio 2009

http://www.musee-orsay.fr/en/collections/works-in-focus/painting/commentaire_id/arearea-10869.html?tx_commentaire_pi1%5BpidLi%5D=509&tx_commentaire_pi1%5Bfrom%5D=841&cHash=93bc0e027a 22 Maio 2009





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