domingo, 4 de outubro de 2009

Semicerrando os olhos e sentindo o texto de Virgínia Woolf

“Quanto a ele, continuava lá em cima na sua rocha, como um náufrago em cima de uma rocha. Inclinei-me na amurada do barco e caí ao mar, pensou ele. Mergulhei até ao fundo. Estive morto e, no entanto, estou agora vivo, mas deixai-me descansar, implorou (...). E tal como de madrugada chilreiam os pássaros e chiam as rodas dos carros, em estranha harmonia, até que, num crescendo, fazem com que a pessoa que dorme se sinta arrastada para as praias da vida, igualmente se sentia ele arrastado em direcção à vida, porque o sol era agora mais quente, soavam mais fortes os gritos, e algo de tremendo estava para acontecer.

Só precisava de abrir nos olhos; mas sentia neles um peso, um terror. Ergueu-se com esforço, olhou para baixo e viu Regent’s Park à sua frente. Longas tiras de sol acariciavam-lhe os pés. As árvores ondulavam, acenando com os seus ramos. Damos as boas-vindas, parecia dizer o mundo, aceitamos, criamos. Beleza, parecia o mundo dizer. E como que para o provar (cientificamente), para onde quer que ele olhasse – casas, gradeamentos, antílopes esticando o pescoço por cima das cercas – a beleza jorrava de forma instantânea. Observar uma folha estremecendo à passagem do vento era por si um delicado prazer. Muito lá em cima, no céu, as andorinhas juntavam-se, apartavam-se, arrojavam-se para um lado, para outro, em círculos, mas sempre em movimentos perfeitamente controlados, como se estivessem presas por elásticos; as moscas que subiam e desciam; e o sol, galhofeiro, bem-disposto, incidia ora numa, ora noutra folha, ofuscando-as com o seu delicado ouro; ouvia-se, a espaços, um tinido harmonioso (talvez uma buzina de automóvel) soando entre as ervas altas – e tudo isso, na tranquila sensatez em que surgia, composto como era de coisas comuns, constituía agora a verdade; a beleza constituía agora a verdade; a beleza coincidia com a verdade. A beleza estava por toda a parte.

“Está na hora”, disse Rezia.

A palavra “hora” irrompeu da sua casca, derramando sobre ele as suas riquezas. E dos lábios dele saíram como conchas, como aparas de uma plaina, sem que ele fizese nada por isso, palavras rígidas, brancas, imortais, que voavam ao encontro do lugar que lhe correspondia numa ode ao tempo; uma ode eterna ao Tempo.”

Virgínia Woolf, "Mrs. Dalloway", Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2004, pág 80-81

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